Embriões modificados geneticamente previne doença hereditária

66

Pela primeira vez, estudo altera DNA de gene causador da cardiomiopatia hipertrófica para prevenir doença

Pesquisadores da Universidade Oregon Health and Science realizaram experimento que auxiliar na prevenção de doenças hereditárias. O geneticista Shoukhrat Mitalipov e sua equipe conseguiram, num feito inédito na história da medicina, reparar a mutação de um gene nas primeiras fases do desenvolvimento de embriões humanos utilizando uma ferramenta de engenharia genética conhecida como CRISPR-Cas9.

O estudo pioneiro se mostrou seguro em relação aos efeitos sobre outras partes do DNA e ao mosaicismo (quando o embrião é composto por dois ou mais tipos geneticamente diferentes de células) alimentando expectativas sobre a liberação de testes clínicos, mas o método ainda precisa ser aprimorado.

"Todas as gerações seguintes poderão carregar essa correção porque nós removemos a variante genética que causa a doença da linhagem da família", explicou Mitalipov, que dirige o Centro para Células Embrionárias e Terapia Genética na Universidade Oregon Health and Science. "Usando essa técnica é possível reduzir a prevalência dessa doença hereditária em famílias e, eventualmente, da população humana."

No caso, os cientistas conseguiram fazer com que o gene mutante MYBPC3 (causador da cardiomiopatia hipertrófica) presente no esperma doado fosse substituído por uma versão normal após a fecundação do ovócito. No grupo de controle, 47,4% dos embriões gerados por técnicas tradicionais de fertilização in vitro não apresentaram a cópia mutante. Já com o uso do novo método, 42 de 58 embriões, ou 72,4%, se desenvolveram sadios. A expectativa dos pesquisadores é que o método com o uso do CRISPR-Cas9 seja aprimorado para, no futuro, aumentar a eficiência e baratear o PGD.

"Nós vimos um índice de reparo muito alto, mas ainda não é 100% eficiente. Nesse estudo, nós usamos o CRISPR padrão, para ver como os embriões se comportariam, mas existe espaço para melhorar", comentou Mitalipov. "Existem ferramentas que podem elevar a eficiência para 90%, ou até 100%. Então, estaremos prontos para avançar para os testes clínicos."

O estudo focou numa mutação específica causadora da cardiomiopatia hipertrófica, doença que afeta uma em cada 500 pessoas e pode levar à insuficiência cardíaca e à morte súbita. Não existe uma cura e os tratamentos clínicos controlam os sintomas, mas em casos mais graves é recomendada a implantação de marca-passo ou a realização de cirurgia cardíaca. Casais em que um dos parceiros possua a mutação genética têm 50% de chances de passar o problema para os filhos.

"Apesar de afetar homens e mulheres em todas as idades, é uma causa comum de ataques cardíacos repentinos em pessoas jovens", apontou Sanjiv Kaul, cardiologista da Oregon Health and Science que participou do estudo. "E ela pode ser eliminada em uma geração numa família."

E as possíveis aplicações da nova técnica não se restringem ao gene MYBPC3. Mais de 10 mil desordens hereditárias relacionadas a apenas um gene já foram identificadas, afetando milhões de pessoas em todo o mundo. Entre elas estão o câncer de mama e de ovário, relacionados com os genes BRCA1 e BRCA2. E como algumas dessas doenças muitas vezes se manifestam na idade adulta, essas mutações escapam da seleção natural e são transmitidas de geração em geração.

"Nós estamos interessados em algumas outras mutações, particularmente em outra que causa a cardiomiopatia hipertrófica, o gene MIH7, responsável por cerca de 40% dos casos da doença", afirmou Mitalipov. "E também queremos explorar correções de genes causadores do câncer."

Mais que o alto grau de reparo nos embriões gerados, o que chama atenção para o experimento é a segurança. Estudos anteriores de aplicação do CRISPR-Cas9 em embriões humanos resultaram em falhas inconcebíveis para uma possível gestação. Em alguns casos, o embrião desenvolveu o mosaicismo, quando apenas algumas células foram reparadas, enquanto outras mantiveram a mutação.

Nos estudos anteriores, realizados na China e na Suécia, o CRISPR-Cas9 foi injetado com embriões já formados, fazendo com que a ferramenta agisse apenas sobre algumas células. Mitalipov e sua equipe fizeram uma abordagem diferente: o CRISPR-Cas9 foi injetado no ovócito junto com o espermatozoide e, dessa forma, pôde corrigir o DNA do doador paterno antes do início da divisão celular, fazendo com que a mutação fosse corrigida em todas as células.

"Ao usar a técnica numa fase mais precoce do desenvolvimento embrionário, conseguimos evitar o mosaicismo", contou Jun Wu, pesquisador do Instituto Salk, na Califórnia, responsável pelo desenho e otimização das ferramentas usadas para fazer a edição genética dos embriões e colaborou na análise dos resultados, não tendo participado diretamente da sua manipulação.

O pesquisador também chamou atenção para melhorias no desenho da ferramenta, que preveniram as chamadas edições “off-target”, em que ela altera não só a sequência desejada como outras parecidas no genoma dos embriões. "Isto depende muito da mutação, mas a ferramenta que desenhamos era muito específica para esta mutação em particular", explicou.

No experimento, os embriões foram descartados poucos dias após a fecundação e as células foram coletadas e sequenciadas para análise da eficácia ou não do reparo do gene mutante. Desde fevereiro, um comitê da Academia Nacional de Ciências dos EUA liberou institutos de pesquisa a realizarem estudos envolvendo a engenharia genética de embriões, mas testes clínicos, com a implantação no útero de mulheres, ainda são proibidos.

"Eu acredito que membros do comitê que estão discutindo essa questão, alguns deles meus colegas, tinham muita preocupação com o mosaicismo e as edições “off-target“. E agora que nós mostramos que essas questões não são grandes problemas, acredito que o comitê possa reconsiderar alguns pontos", afirmou Mitalipov.

O avanço tecnológico proporcionado pelo experimento é inquestionável, pois ele abre portas até mesmo para a erradicação de doenças hereditárias, mas a alteração da linha germinal de humanos — que transmite o material genético para as próximas gerações — é um tema controverso. Existe o temor de que essas técnicas possam ser usadas, no futuro, para o design de bebês, tanto na seleção de características físicas, como na potencialização das capacidades físicas e cognitivas, criando humanos superiores. "Nós precisamos desenhar uma linha. As agências reguladoras precisam decidir que doenças podemos tratar e até onde podemos ir", completou o pesquisador.

PALAVRAS-CHAVE

Comentários

Recomendados

  • Asteroide de 4,8 km passará pela Terra em 1 de setembro

    O asteroide Florence não chega tão perto da terra desde 1890 e, depois de setembro, o evento mais próximo está previsto para 2500.

  • Novo Malware do Android pode roubar dados sem que o usuário perceba

    O novo aplicativo malicioso para dispositivos Android pode roubar secretamente cartão de crédito, chamadas, conversas e todos outros dados sem que o usuário note.

  • Jovem reaparece após 4 semanas perdida em floresta do Alabama

    Lisa Theris, dada como morta, foi encontrada muito debilitada por mulher que dirigia numa estrada rural fora de Union Springs, no Alabama.

  • Teoria quântica sugere que futuro pode mudar o passado

    Nova teoria de física quântica direcionada a retrocausalidade explica o que ocorre com o entrelaçamento quântico.

  • Eclipse Solar mais esperado está previsto para 21 de agosto no Brasil

    O evento astronômico mais esperado dos últimos anos está chegando e poderá ser observado de diversos estados brasileiro.

  • TRÁGICO

    Dublê de "Deadpool 2" morre em acidente de moto durante gravação

    A dublê teria perdido o controle da moto que pilotava durante o set, atravessando a janela de um edifício na rua.

  • VEJA

    Astronautas da NASA receberão lotes de sorvete no espaço

    O foguete Falcon 9 da SpaceX fará alguns experimentos e a viagem experimental não será em vão: lotes de sorvetes serão enviado aos astronautas da NASA.

  • VIX

    Anonymous assume site neo-nazi após morte de mulher em Virgínia

    Após a GoDeddy bloquear o conhecido site neo-nazi, Google diz que vai banir o site da internet.

  • QUE AVANÇO

    Avanço genético pode permitir transplantar órgãos de porcos em humanos

    Esses porcos foram criados para ajudar a acabar com a falta de órgãos para transplante e ser tornaram os animais mias geneticamente modificados que existem.

  • TESTE AGORA

    Baixe tudo que a Google sabe sobre você e se surpreenda!

    A gigante armazena todos dados de seus usuários, bem o comportamento em cada um de seus serviços, além de permitir que o usuário faça o download dos mesmos.

  • Nova lei alerta para os problemas no excesso de postagens em redes sociais

    Nova lei britânica vai garantir o "direito à inocência" e evitar alguns constrangimentos para quem postava muita coisa antes dos 18 anos.

  • ALERTA!

    OMS alerta para epidemia de doença sexualmente transmissível

    O vírus super resistente é uma variação da gonorreia e resistiu a todos antibióticos conhecidos até agora.

  • VEJA!

    Pesquisa explica porquê é tão difícil abandonar as redes sociais

    O Departamento de Comunicação da Universidade Estadual do Michigan afirma que, nós humanos, estamos sendo condicionados a frequentar esses espaços.

  • FBI prende especialista que parou o ataque Ransomware

    As autoridades dos Estados Unidos o prenderam por supostamente criar e distribuir Malwares para sistemas bancários.

  • NASA abre vaga para "Defensor da Terra" com salário de US$ 187 mil

    O cargo disponível é de Oficial de Proteção Planetária e quem ocupar deverá proteger a Terra contra alienígenas.

  • BEM FEITO!

    Homem atira em tatu e a bala rebate e atinge rosto do atirador

    O homem ficou ferido após a bala rebater no animal em seu jardim.e atingir o rosto do atirador.

  • Robô em forma de minhoca pode entrar em qualquer lugar

    O robô que lembra uma minhoca e é capaz de diminuir ou aumentar de tamanho para acessar diversos orifícios.

  • Embriões modificados geneticamente previne doença hereditária

    Pela primeira vez, estudo altera DNA de gene causador da cardiomiopatia hipertrófica para prevenir doença

  • Compartilhar

    Copiar Link

    www.000webhost.com